A crise envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, ultrapassou os limites do mercado financeiro e chegou ao bolso do contribuinte brasileiro. Embora o rombo de R$ 47 bilhões gerado pela liquidação da instituição e do Will Bank tenha sido inicialmente absorvido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), o efeito cascata ameaça agora cofres públicos e aposentadorias de servidores em diversos estados.
O
Mecanismo da "Socialização do Prejuízo"
Diferente dos investidores pessoa física (protegidos
pelo FGC em até R$ 250 mil), grandes fundos de pensão e instituições públicas
investiram volumes bilionários no Master sem as mesmas garantias. O risco de
calote criou dois gargalos principais:
· Regimes de Previdência (RPPS): Fundos
estaduais e municipais de locais como Rio de Janeiro, Amapá e Amazonas
aplicaram recursos em títulos do Master em busca de rendimentos altos.
· Banco de Brasília (BRB): O banco estatal do
Distrito Federal adquiriu carteiras de crédito do Master (sob suspeita de
fraude) e pode precisar de um aporte bilionário para não quebrar.
"É a socialização do prejuízo", afirma o
tributarista Kleber Galerani. Como o Estado tem o dever constitucional de pagar
aposentadorias, qualquer rombo nos fundos acaba sendo coberto por impostos ou
cortes em serviços públicos.
Aposentados
na Mira
A estratégia do Master era agressiva: atrair capitais
com juros acima da média. Dados do Ministério da Previdência mostram que 19
fundos de previdência própria morderam a isca.
· Rio de Janeiro (Rioprevidência): Investiu R$
970 milhões em Letras Financeiras do banco entre 2023 e 2024. O caso já
resultou na prisão do ex-presidente da autarquia, Deivis Marcon Antunes, por
suspeita de obstrução de justiça.
·
Amapá (Amprev):
O governo local declarou-se "lesado" e acionou a justiça para tentar
recuperar investimentos que somam 4,7% do patrimônio do fundo.
Se o Master não honrar esses pagamentos, a solução será
amarga: aumento da contribuição mensal dos servidores (ativos e inativos) ou
repasses diretos do Tesouro Estadual, retirando verba de áreas como saúde e
educação.
No Distrito Federal, o cenário é contábil. O Banco
Central estima que o BRB pode
necessitar de uma injeção de R$ 5,5
bilhões para sanar o balanço após comprar carteiras de crédito do Master
que, segundo investigações da PF, seriam "fantasmas" ou superestimadas.
O BRB admitiu que, caso não consiga revender esses ativos no mercado, a alternativa será um aporte direto do Governo do Distrito Federal (GDF) — medida que depende de aprovação política e gera desgaste ao governador Ibaneis Rocha.
O Que Dizem os Envolvidos
·
Governo
do RJ: Afirmou que o banco tinha notas de crédito positivas (rating)
na época dos investimentos e que abriu sindicância.
·
Governo
do AP: Busca ressarcimento judicial e diz ter sido vítima de
"maus feitos" do banco.
·
Banco
Master e Daniel Vorcaro: A defesa informou que não comentará as
investigações ou a situação financeira.
A liquidação forçada do banco em novembro de 2023, sob a Operação Compliance Zero, deixou um rastro de incertezas que, para especialistas como o economista Ricardo Rocha (Insper), dificilmente será resolvido sem longas batalhas judiciais.
Milton Lima - AGORA!
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